Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras,
As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.
Ao longo do muro eram talhas de barro.
Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.
Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?
Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.
Adélia Prado
(...) Por isso (sic) não te posso mandar nenhuma palavra animadora. Digo apenas que não concordo com você quando você diz que faz arte apenas porque “tem um temperamento infeliz e doidinho”. Tenho uma grande, uma enorme esperança em você e já te disse que você avançou na frente de nós todos, passou pela janela, na frente deles todos. Apenas desejo intensamente que você não avance demais para não cair do outro lado. Você tem de ser equilibrista até o fim da vida. E suando muito, apertando o cabo da sombrinha aberta, com medo de cair, olhando a distância do arame já percorrido e do arame a percorrer — e sempre tendo de exibir para o público um falso sorriso de calma e facilidade. Tem de fazer isso todos os dias, para os outros como se na vida não tivesse feito outra coisa, para você como se fosse sempre a primeira vez, e a mais perigosa. Do contrário seu número será um fracasso.
Fernando Sabino
"De repente (nunca souberam como aconteceu), foi como se a face de Aslam se tornasse um mar de ouro no qual flutuavam; inexprimível força e ternura passavam por eles e por dentro deles; e sentiram que jamais na vida haviam sido realmente felizes, bons ou sábios, nem mesmo vivos e despertos, até aquele momento. A lembrança desse instante permaneceu com eles para sempre; enquanto viveram, se alguma vez se sentiam tristes, amedrontados ou irados, a lembrança daquela bondade dourada retornava, dando-lhes a certeza de que tudo estava bem. E sabiam que podiam
encontrá-la ali perto, numa esquina ou atrás de uma porta." C.S. Lewis - As Crônicas de Nárnia.
Não levanto às pressas e nem deixo o lençol no chão do quarto. Não mais. Agora a vida começa impreterivelmente lá pelas 6hs da manha mesmo! Nem mais e nem menos 5 minutinhos. Claro que ter que fazer a barba antes de ir ao trabalho me consome no mínimo 15 minutos, que era exatamente os 3 alarmes dispersos que usava antes que a preguiça fosse finalmente superada. O tempo mudou, diminuiu. Ficou um tom mais sério na expressão do meu rosto, dizem. Há quem ache que eu ando mais calado que o de costume, exceto quando aqueles goles de cerveja desprendem risadas e conversas inúteis. Ou eu mudei o tempo ou o tempo me mudou, ou, ou, ou...
Agora eu entro no carro, e corro como na musica do Rei que fala da “Estrada de Santos”. Horários a serem cumpridos, os minutos que não existem mais, passam lentamente enquanto o sinal não fica verde e posso finalmente avançar. Deixo a minha casa, e algumas coisas que eu amo, meus irmãos, a velha, os livros do meu quarto comprados e alguns nunca lidos, e o cachorrinho – que este eu sei que espera ansioso pela minha volta e me recepciona com patas sujas – como nas propagandas de margarina dos anos 80. Era bem diferente há algum tempo atrás. Papai batia na porta do meu quarto, berrando, já que meus ouvidos já tinham se habituado ao toque do despertador, colocava meu par de tênis, escovava os dentes e mais nada. O boné caia bem. Era vida de estagiário, de ‘filho de papai’. O salário era convertido em viagens, e uma pequena parcela, pode-se dizer que me aproximava da minha família quando gastava com ligações telefônicas durantes as festas e as viagens infindáveis. Era sempre um teatro, um show, um cinema. Tinha também às noites com violão, os acampamentos, a praia, o mar. As noites de vodkas e cervejas, as reflexões mais belas sobre a vida e seus desdobramentos fluíam com o álcool. O tempo quando encurta, me parece retrair aos meus primórdios, onde ficar em casa era quase que impositivo. Menino de 13 anos não sai sozinho, não tem a chave da casa. Meu tempo curto me devolveu a ânsia pela família, minhas viagens não são mais pensadas sem a companhia dela, e nem meu salário em viagens de final de semana. Agora o troféu dessa rotina diária é a conversa nas refeições, os silencio entre uma garfada e outra. O riso no rosto de minhas irmãs, ou a vaidade da minha mãe quando sai pro salão de beleza. Eu realmente só sei que isso é que me dá prazer: a solidariedade na saudade. E em cada minuto encurtado, cada dia alcançado diminui a distancia entre alguma coisa que eu ainda não sei o que é. Não me interesso saber também. Talvez porque no fundo o que todo ser humano precisa é de uma rotina que te leva a realizar algum desejo que apenas se aponta no momento final. E vou seguindo ‘dia-após-dia’, sem grandes metas e sem grandes sonhos, até que essa vida mostre alguma coisa, se é que existe, mais instigante que amar o que já se tem, e o que não existe mais.
Carta de Fernanda Montenegro à Clarice Lispector em 1973.
Esta Carta foi escrita em meio a Ditadura Militar, onde a atriz manifestava sua impotência, lamentando a repressão sentida pelo povo sob à censura e a falta de liberdade de expressão. Essa fase promoveu no Brasil a evolução da qualidade dos artistas nacionais, em todos os âmbitos, pois passou a exigir muito mais personalidade e criatividade para driblar a ditadura e assim poder criticar a política que se instaurou, na esperança de se mudar um país. A “barata” citada na carta é uma simbologia contemplada no livro de Clarice “A Paixão Segundo G.H.”
Clarice,
É sempre com emoção que lhe escrevo pois tudo o que você propõe tem sempre essa explosão dolorosa(...). Ao ler meu nome escrito por você, recebi um choque não por vaidade mas por comunhão. Ando muito deprimida, o que não é comum. Atualmente em São Paulo se representa de arma no bolso. Polícia na porta dos teatros. Telefonemas ameaçam o terror para cada um de nós em nossas casas de gente de teatro. É o nosso mundo.
E o nosso mundo, Clarice?
Não este, pelas circunstâncias obrigatoriamente políticas, polêmicas, contundentes. Mas aquele mundo que nos fala Tchecov: onde repousaremos, onde nos descontrairemos? Ai, Clarice, a nossa geração não a verá. Quando eu tinha quinze anos pensava alucinadamente que minha geração desfaria o nó. Nossa geração falhou, numa melancolia de 'canção sem palavra', tão comum no século XIX. O amor no século XXI é a justiça social. E Cristo que nos entenda.
Estamos aprendendo a lição seguinte: amor é ter. Na miséria não está a salvação.
Quem não tem, não dá. Quem tem fome não tem dignidade (Brecht). Clarice, estou pedindo desculpas por esse palavratório todo. Mas deixe que eu mantenha com você esta sintonia dolorosa dos que percebem alguns mundos, não apenas este ou aquele, porém até mesmo aquele outro, embora não linearmente - como é o caso.
Nossa geração sofre da frustração do repouso. É isso, Clarice? A luta que fizermos, não faremos por nós. E temos uma pena enorme de nós por isso. É assim que explico pra mim frases que você põe no seu artigo: 'Eu que dei pra mentir. E com isso estou dizendo uma verdade. Mas mentir já não era sem tempo. Engano a quem devo enganar, e, como sei que estou enganando, digo por dentro verdades duras.' A luta, a que me refiro lá no alto, seria aquela luta bíblica, a grande luta, a que engloba tudo.
Voltando às 'verdades duras' de que você fala: na minha profissão o enganar é a minha verdade. É isso mesmo, Clarice, como profissão. Mas na minha intimidade toda particular, sinto, sem enganos, que nossa geração está começando a comungar com a barata. Nós sabemos o que significa esta comunhão, Clarice. Juro que não vou afastá-la de mim, a barata. Eu o farei. Preciso já organicamente fazê-lo. Dê-me a calma e a luz de um momento de repouso interior, só um momento.
"Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o outro dos outros: e o outro dos outros era eu."
Recife, Quarta-Feira, 2 de Maio de 2007 (3:31:31).
Dan,
esse e-mail é só pra te agradecer pela força que você me deu durante esses dias. pela virada e motivação que tuas palavras e gestos me causaram. por me ajudar a enxergar novamente o sentido das coisas. Obrigado por tudo, meu amigo. Obrigado pela paciência, pela dedicação, pelas palavras, pelas coisas mágicas que você guarda em você, na sua bolsa. As maiorias dos nossos momentos tiveram uma importância vital pra mim, pode acreditar. Obrigado por eles e me desculpa pelos momentos que fui fraco e não pude te ajudar da mesma forma.
Amo-te.
Danilo,Era uma vez um lindo e alegre trabalho de Weber que vivia na terra dos trabalhos sobre clássicos. Lá ele nutria amizades fortíssimas com o trabalho de Marx e o trabalho de Hobbes, e tinha, não podemos negar, uma fortíssima paixão pelo trabalho de Margaret Mead. Infelizmente, o trabalho de Margaret Mead era apaixonado pelo trabalho de Ruth Benedict, e era correspondida apesar da intensa repressão que este tipo de relacionamento sofria naquela época. * Trabalho de Weber era feio, fraco e sem muito conteúdo, sempre andava na casa dos 7,0 ou 7.5, mas era suficiente para ele. Ele não tinha muitas pretensões, além de ampliar o amor que tinha pelas amizades e claro, ajudar as pessoas a entenderem melhor as obras de Max Weber - o suficiente para passar no semestre. FIMEspero que ainda possa te ajudar, desculpa pela demora em te mandar.Beijos.
-O tabu inserido nessa relação entre Trabalho de Margaret Mead e Trabalho de Ruth Benedict não é decorrência de questões de sexualidade, já que todo trabalho é masculino, como já dizia o deus dos trabalhos, a Gramática (único ser feminino do universo sagrado deles)**. No entanto, os trabalhos tem uma cultura exogâmica, ou seja, um trabalho de antropologia só pode ter relações com um trabalho de sociologia, história, filosofia, psicologia, etc. Apenas um grupo de trabalho é endogâmico e isso, pode ser a causa de suas visões bastante restritas do mundo. Este grupo compreende os trabalhos de ciência política e direito(...) -A Gramática, deusa máxima da religião dos trabalhos é muito cultuada em várias regiões de forma internalizada, agindo como se ela fizesse parte do trabalho. Em outras áreas, o seu culto, tem um poder muito mais exteriorizado, cabendo aos trabalhos respeitar essas regras, podendo perder conceito se não respeitá-la. Desta forma, podemos entender a Gramática como uma importante estrutura social, instituida pela influente magia da escrita e do conhecimento literário. Em algumas seitas é possivel se notar uma radicalização do culto a deusa Gramática. Diz-se nessas seitas que a Gramática é casada com outra deusa feminina, a regra da ABNT. Sendo assim, não só a Gramática é vista como algo exterior com poder de lei, como as regras da ABNT devem ser também seguidas. Os trabalhos, mesmo que criativos, quando não respeitando as instituições da ABNT e da Gramática, podem ser punidos com o menosprezo, a "nota baixa" e até, o arquivamento ou reprovação. Essas seitas são muito comuns nas regiões motanhosas e frias da Academia e do deserto árido dos Institutos privados de pesquisa.
É a extinção de uma obrigação consistente no pagamento da dívida mediante a entrega de um objeto diverso daquele convencionado. Assim, a dação em pagamento é um acordo de vontades entre credor e devedor, por meio do qual o primeiro concorda em receber do segundo, para exonerá-lo da dívida, prestação diversa da que lhe é devida. É uma das formas consideradas como pagamento indireto visando a extinção de obrigações.
O meio natural de resolver uma dívida é o pagamento, que consiste basicamente na realização da prestação avençada. Entretanto há outras formas indiretas de extiguir-se uma obrigação, a exemplo da compensação, novação e dação. Como explicita o conceito da dação em pagamento, esta requer, primeiramente, um acordo de vontades para que o devedor receba coisa diversa do que foi acordado. Isto ocorre porque um dos princípios básicos do Direito das Obrigações - Primeiro Capítulo da Parte Especial do Novo Código Civil de 2002 - dispõe que "o credor não é obrigado a receber coisa diversa do avençado".
Toda essa enrolação jurídica foi pra dizer que tive uma idéia... =P
Ao invés de você me pagar aqueles 20 ou 30 reais não lembrados, bem que poderia comprar um chip da Oi pra mim... Assim, você poderia finalmente ligar pra mim! Eu também já tava pensando em comprar um porque a maioria dos telefones q eu ligo são da Oi e a ligação Tim - Oi é a mais cara q existe! =/
É só uma idéia... Nem sei se o preço do chip é mais ou menos esse.
Como falei, a dação em pagamento requer acordo de vontades, pois o credor pode obrigar o devedor a receber coisa diversa da combinada - mesmo que de maior valor - nem vice-versa.
A intenção deste Blog é revelar algumas cartas e e-mails acumulados ao passar dos anos. Essas correspondências podem ser reais ou não, e possuir codinomes pra preservar a identidade real dos remetentes. É interessante que o leitor, ao entrar na intimidade revelada pelo Blog, possa descobrir a experiência do que se escreveu,percebendo que esse tipo de escrita, talvez, seja a forma mais autêntica de se abordar os sentimentos universais. Essas cartas podem levar a pensar no conceito, formulado por Michel Foucault, de que a carta, ao deslocar a responsabilidade para o sujeito empírico, é a forma mais desinibida e sublime da “escrita de si”.
Para você que, também, ainda não encontrou as expressões: sinta e não entenda.